São Paulo, 6 de abril de 2023 – A semana foi marcada por troca de afagos entre o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Os elogios mútuos, no entanto, foram insuficientes para trazer tranquilidade aos investidores. A economia global, a expectativa com a tramitação do novo marco fiscal e as dúvidas sobre como o governo vai garantir o aumento da receita seguem trazendo dor-de-cabeça.
Os últimos dados de desempenho da economia americana indicam a possibilidade de recessão e trazem ao mercado o sentimento de que a política monetária dos Estados Unidos pode afrouxar. Manutenção de juros e até cortes voltaram a ser especulados para o restante do ano.
Aqui, o tom dos discursos de Haddad e Campos Neto faz alguns economistas e gestores especularem um possível corte na Selic em junho. Com o dólar ameaçando recuar para níveis abaixo dos R$ 5,00, esse sentimento ganhou força.
O mercado aguarda para a próxima semana a evolução de temas importantes no Congresso, principalmente a entrega do texto do marco fiscal. Medidas concretas sobre como o governo vai aumentar a arrecadação também seriam bem-vindas. A política de preços da Petrobras voltou a pauta, com informações desencontradas do Ministério das Minas e Energia e da estatal.
Atenção também ao exterior. Fed e BEC divulgarão suas atas e há uma série de indicadores importantes a serem avaliados.
Às 14h30 da sexta, o índice Bovespa se mantinha acima dos 100 mil pontos, acumulando desvalorização de 1,05% a 100.813 pontos. O dólar comercial tinha queda semanal de 0,26%, a R$ 5,056. Os DIs de janeiro 2027 abriram a semana a 12,100% ao ano e encaminhavam encerramento a 12,025%.
A agenda doméstica vem mais recheada na próxima semana. Na segunda, a FGV divulga o IFP-DI de março e o mercado avalia ainda as projeções do Boletim Focus. Na terça, o IBGE libera o IPCA de março. Na quarta, o mercado conhecerá os dados do setor de varejo e, na sexta, serão divulgados os números do comércio.
Política
Confirmada a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, na próxima semana, a agenda política vai se concentrar no Congresso Nacional. A expectativa é sobre o texto final do novo marco fiscal, que deve ser enviado ao Congresso logo após o feriado da Páscoa.
A previsão é que a proposta de arcabouço fiscal chegue juntamente com o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2023, cujo prazo de apresentação aos parlamentares é 15 de abril.
A proposta do marco fiscal começa a tramitar pela Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), se comprometeu com o governo a dar celeridade ao processo de votação do projeto que, por se tratar de uma lei complementar, exige maioria absoluta para aprovação. Ou seja, o voto favorável de 257 deputados. No Senado Federal, 41 votos.
A intenção de Lira é aprovar urgência para a tramitação do arcabouço fiscal e levar a proposta diretamente para o plenário, eliminando a etapa das comissões. Para isso, o presidente da Câmara vai indicar um deputado do PP para relatar a proposta. Os candidatos a relator são Covatti Filho (PP-RS), Carlos Cajado (PP-BA), Mário Negromonte Júnior (PP-BA) e Fernando Monteiro (PP-PE).
Além do marco fiscal, o Palácio do Planalto quer ver resolvido o impasse em torno do processo de votação das medidas provisórias. O acordo inicial espera a instalação de pelo menos uma comissão mista na próxima semana. A apreciação das MPs editadas por Lula deve começar com o texto trata da estrutura da Esplanada dos Ministérios, ampliando de 22 para 37 pastas.
Devem ser instaladas também as comissões mistas das MPs do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida e a que retoma o voto de qualidade no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Os conteúdos de outras oito medidas provisórias devem ser encaminhados ao Congresso por meio de projeto de lei com urgência constitucional, que dá prazo de 45 dias para votação em cada uma das Casas, ou incluídos em outras MPs através de emendas.
Internacional
A semana mais curta se destacou pelos relatórios de emprego dos Estados Unidos. Na terça-feira, o Jolts, que traz o número de vagas em aberto, informou que, em fevereiro, havia 9,931 milhões de postos de trabalho abertos, ante 10,8 milhões em janeiro. O índice da ADP (American Data Processing), que mostra o número de vagas criadas no setor privado, também trouxe números preocupantes: foram 145 mil vagas criadas em março, menos que as 261 mil de fevereiro e abaixo das 200 mil previstas pelo mercado.
Há ainda a divulgação do payroll de março, no feriado da Sexta-feira Santa, e que poderá abalar os mercados na próxima segunda-feira. Porém, estes números já trazem um sinal de que a economia está esfriando.
Além disso, a OPEP anunciou, em uma reunião no último domingo, a redução na produção em 1,1 milhão de barris de petróleo por dia (bpd), que pegou os investidores de surpresa e fez a cotação do barril disparar mais de 5%, mas, com os dados decepcionantes do emprego norte-americano, os traders preveem recessão à frente – e a cotação do barril voltou a cair.
Para a próxima semana, os Estados Unidos divulgarão os estoques no atacado, os índices de preços ao consumidor e ao produtor, os estoques de petróleo, a ata da última reunião do FED, pedidos de seguro-desemprego, preços de importação e exportação, vendas no varejo, produção industrial e o índice Michigan/Reuters de confiança do consumidor.
A zona do euro publica o índice Sentix de confiança do investidor, vendas no varejo, produção industrial e a ata da reunião do BCE. A Alemanha divulga o índice de preços ao consumidor. O Reino Unido publica a leitura do PIB, produção industrial e a balança comercial.
A China divulga os índices de preços ao consumidor e ao produtor e a balança comercial. O Japão publica o índice de preços ao produtor e o saldo em conta corrente.
Haverá também as publicações dos relatórios mensais de petróleo da Opep e da AIE. O FMI também divulgará a primeira edição de 2023 do World Economic Outlook (WEO), que traz um panorama da economia mundial e as previsões de crescimento para 2023 e os anos seguintes.
Empresas
A política de preços da Petrobras voltou essa semana à pauta. Primeiro, foi o ministro Alexandre Silveira, das Minas e Energia, que tocou no assunto, defendendo a mudança. “O PPI é um absurdo. Precisamos ter o PCI, que é o preço de competitividade interna. A Petrobras precisa de um preço de referência interno”, defendeu.
Ele falou também que o país deve ser autossuficiente na produção de petróleo, para evitar flutuações do preço da commodity no mercado internacional, mas a estatal brasileira de petróleo não deve pensar apenas no lucro. “Precisamos ser autossuficientes, mas a Petrobras precisa cumprir sua visão social”. Silveira disse que os preços dos combustíveis seriam reduzidos se fossem considerados apenas os custos da Petrobras. “Teríamos redução de R$ 0,22 a R$ 0,25 no preço dos combustíveis”.
A Petrobras divulgou um comunicado reafirmando seu compromisso com a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado nacional, ao mesmo tempo em que evita o repasse imediato das volatilidades externas e da taxa de câmbio causadas por eventos conjunturais. Segundo a nota, a companhia não recebeu nenhuma proposta do Ministério das Minas e Energia a respeito da alteração da Política de Preços, e que quaisquer propostas de alteração da Política de Preços recebidas do acionista controlador serão comunicadas oportunamente ao mercado, e conduzidas pelos mecanismos habituais de governança interna da companhia.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que vai mudar a política de preços da Petrobras, mas com muito critério. “Durante a campanha eu disse que era preciso ‘abrasileirar’ os preços da gasolina e do óleo diesel. O Brasil não tem porque estar submetido à PPI (Política de Preços Internacionais)”.
Sobre possíveis divergências sobre a política de preços da Petrobras entre o presidente da empresa, Jean Paul Prates, e o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, Lula disse que vai conversar com os dois. “Se houve divergência entre os dois, ela deixará de existir. Vou conversar com os dois, porque o governo não está discutindo isso”, acrescentou.
Além deste tema, os investidores também ficam de olho nas análises dos especialistas do mercado financeiro sobre o que esperar dos resultados do primeiro trimestre de 2023.
Na segunda-feira, 10/4, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulga os números do setor em março. No mês passado, o fraco desempenho das vendas motivou a paralisação de três unidades da Volkswagen, em fevereiro, e o anúncio de férias coletivas entre março e abril de General Motors, Hyundai e Stellantis, dona de marcas como Fiat, Peugeot, Citröen, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, em 20 de março.
Somada à falta de componentes, que levaram a seguidas paralisações das fábricas desde 2020, com a pandemia afetando a cadeia de suprimentos, desta vez, o cenário econômico de juros altos e inflação influenciou a decisão das fabricantes de interromper a produção e, assim, ajustar a produção à demanda mais fraca de vendas.
Em fevereiro, os licenciamentos de automóveis e comerciais leves recuaram 5% em fevereiro na comparação com o mesmo mês do ano passado, a 103.038 unidades, segundo a Anfavea. Ante janeiro, houve queda de 7%. No acumulado do ano, os emplacamentos de leves somaram 213.860 de unidades, alta de 3% frente ao mesmo período de 2022.
Já os licenciamentos totais de veículos – que incluem automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus – somaram 112.446 unidades em fevereiro, queda de 4% em base anual e de 8,1% na comparação com janeiro.
Dylan Della Pasqua, Luiza Damé, Cynara Escobar e Vanessa Zampronho / Agência CMA